| MAURINHO DO RONCADOR
Nascido
antes do tempo da Terra, aos 8 meses, em Barra do Garças,
a 70km do Roncador, Mauro Ferreira da Silva (Maurinho), começaria
sua maior trilha - a da vida - em 23 de setembro de 1964. Sua
mãe, Isabel Ferreira da Silva, descendente da tribo indigena
Gavião, e seu pai, Anailton Fernandes da Silva, tiveram
11 filhos, sendo Maurinho o sétimo. Dos filhos, dez eram
do próprio casal e uma criança adotada. Ficou três
anos no hospital onde nasceu, pois sua mãe ali trabalhava
e não tinha como dar os cuidados de que ele necessitava
em casa. Sua infância, na maior parte, foi no maciço
da serra do Roncador.
Aos 16 anos, vivendo em Rondonópolis, fugiu de casa para,
de novo, vir ao local de sua infäncia, saudoso do seu Roncador.
Seu caminho no mundo abrangeu várias geografias: Paraguai,
Bolivia, onde dava aula de artesanato, Argentina, Goiás,
São Paulo, Rondönia, Amazônia, até retornar
ao Mato Grosso. Sabia que deveria ir a um lugar e pensou que seria
a Amazönia, onde chegou a viver por alguns meses.
Voltando ao Roncador para se despedir dos parentes, encontrou
a fazenda ao pé do bico do Roncador disponível para
venda. Seu coração imediatamente despertou. "Esta
terra nao teria outro dono - seria sua e ele seria dela."
Nao tinha o valor todo para comprá-la e deixou com o proprietario
tudo que tinha.Voltou ao norte do Mato Grosso e vendeu tudo para
completar o valor. "Não se preocupar de onde vem,
mas saber que vem"- este era o seu pensamento ao buscar os
recursos. Em 19 de fevereiro de 1994, o proprietário aumentara
o preço mas o que ele pediu era exatamente o que Maurinho
trazia no bolso.
Seis
meses apos a compra da fazenda enfrentaria um novo desafio: uma
penhora que o dono tinha sobre a mesma."Calma, que tudo tem
solução", pensava. Conheceu um advogado que
defendeu seu direito à propriedade, embora tenha comentado:
"Nunca vi banco devolver uma terra". Oito anos depois,
o advogado lhe mostraria um cofre, dizendo que o abrisse e ali
ele encontrou, surpreso e feliz, de volta a escritura da propriedade.
O preço cobrado pelo advogado fora "passear pela região
com sua família para desfrutar quando quisesse", não
tendo havido nenhuma remuneração monetária.
Como diz Maurinho, "tudo que eu tenho de mais valioso foi
doado".
Quando comprou a terra, sua visão era constituir família
e ali viver com algum negócio. No entanto, em seu coração,
buscava ainda algo que não entendia o que era. Enquanto
isso, trabalhava na terra, com a alegria de subir e descer a serra,
levando as pessoas para o "bico do Roncador".
Era 8 de agosto de 1994 e Maurinho intuiu que passaria por uma
experiência da qual talvez não voltasse. Naquele
dia, estava na estrada, quando uma roda de estepe de uma carreta
se soltou e andou 23m vindo em sua direção, batendo
forte em suas costas. Maurinho segurava um facão e, com
a queda, cortou seu maxilar que se quebrou em 5 partes, quebrando
ainda o braço, a bacia, atingiindo a espinha dorsal. Com
fraturas expostas no braco e perdendo muito sangue, ouviu o carreteiro
dizer: "Este já morreu de hemorragia interna".
Maurinho ouviu e imediatamente pensou: "Por isso que falam
que quem morre de acidente, nao se conforma. Eu quero meu corpo
de volta". Era véspera de seu aniversário e,
enquanto o levavam para o Pronto Socorro da Barra do Garças,
pensava: "Só eu sei o que tem que ser feito no Roncador.
Tenho que voltar." No Pronto Socorro, logo se deram conta
de que não tinham recursos para tratá-lo e o levaram
para Goiânia, onde os médicos constataram a gravidade
do seu quadro, declarando que ficaria seis meses em uma cadeira
de rodas, alimentando-se com um canudinho para restaurar seu maxilar.
Somente depois de seis meses, apos avaliacao medica, saberia se
voltaria a andar.
Inconformado
com este diagnóstico, Maurinho teve uma visão sobre
o local onde pouco antes do acidente havia encontrado a nascente
de um fio de água na rocha da serra, ao lado do qual corria
uma resina. Na sua visão, apareciam duas formas humanas,
uma mais nítida como a de um monge, e outra, mais difusa,
que lhe passavam uma instrução: "Se você
beber desta água, daqui 8 dias, você sai da cadeira
de rodas e volta a andar."
Tinham se passado 23 dias do acidente quando isso ocorreu. Fortemente
ancorado em sua serra e na instrução recebida, chamou
o seu pai e, com dificuldade em articular as palavras, pediu que
fosse à serra, e buscasse um pouco da água que descobrira
e o 'oleo da resina que sai da montanha, dando as orientaçoes
necessárias para achar o local. Em 22 de agosto, seu pai
voltou com a água leitosa que ele tomou e aplicou em seus
ferimentos. Em 1o de setembro, a 23 dias de seu aniversário,
decidiu que era hora de andar. Sentiu os pés, e com esforço,
levantou-se e andou até o batente da porta, assustando
a família. Desta forma, sem o tempo que os médicos
disseram, sem engessar nem enfrentar a cadeira de rodas, Maurinho
se erguia novamente para voltar ao seu Roncador.
O acidente seria o primeiro de vários problemas que o
levaram a perder o carro e outros bens, só lhe restando
o querido Roncador. Uma noite, enfrentando v'arias dificuldades,
adormeceu confiando na Providencia Divinha. Meia noite daquele
dia, chegou um amigo de Goiânia, trazendo suprimentos. Era
a lei da materialização, que diz que onde existindo
a necessidade, manifesta-se o que é necessário.
Maurinho começou a observar que conseguia as coisas sem
nem saber como. Pensava: "O que está por trás
disso tudo? Basta pedir que o universo atende." Verificava
também que a lei do receber estava ligada à lei
do dar. Seria assim que superaria aquela fase, resolvendo questões
de energia, água, instalaçoes, e outros itens. 
Cada conquista passou a ser um dos vários "causos"
que, com o coração, vai contando aos que por ali
pousam e se alimentam da energia da Serra do Roncador.
Hoje Maurinho recebe pessoas e grupos de várias origens
e crenças com o coração aberto. Irmãos
que o ajudam a dar forma às trilhas que descobrem as geografias
diferenciadas do Roncador, do qual ele também é
parte.
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